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quinta-feira, 14 de maio de 2015

Arte Musical

Entre o sonho e a psico delia, Lira lança segundo disco solo

  Por Luiza Maia do Diários associados de Pernambuco 

     A cereja do bolo do novo disco de Lira, O labirinto e o desmantelo, aguarda a bênção de uma das principais vozes da música brasileira para a gravação se tornar pública, mas poderá ser ouvida no show de lançamento no Recife, nesta sexta-feira (15).Jabitacá, canção inspirada em um cantinho situado entre Sertânia e Arcoverde, cidade natal do cantor, estará no CDEstratosférica, de Gal Costa, previsto para o dia 26 de maio, com faixas assinadas por Criolo, Mallu Magalhães e Marcelo Camelo. Após o lançamento da Tigresa, o álbum do pernambucano chegará às lojas, e a 11ª faixa ganhará divulgação na web - as outras dez estão disponíveis para audição no Deezer (pela internet). 

“É muito forte ela gravar essa música, porque falo de um lugar que se torna imaginário, mas existe. Falo da mais bela flor encontrada nas montanhas de Jabitacá. Mas lá não é montanha, é um serrote”, conta, envolto em risos, sobre a música composta em parceria com Bactéria, ex-Mundo Livre S/A, e Junio Barreto (autor também da faixa-títuloEstratosférica, com Pupillo e Céu). Elba Ramalho (Nossa senhora da paz) e Pitty (Lagrimas pretas) já gravaram músicas dele.

Gal e Lira se conheceram em espetáculo em tributo a Waly Salomão, uma das referências poéticas do disco, em julho de 2014, no lançamento do livro Poesia total (Cia das Letras, R$ 49). “Quando recitei um poema dele chamado Garrafa, Gal sugeriu que trouxesse para a introdução de Vapor barato”, recorda. Nos bastidores, começou a relação musical dos dois, estreitada com o pedido de canções por Marcus Preto, diretor artístico de Estratosférica. Ele mandou três. Jabitacá foi escolhida. 


Imagem: Divulgação
O labirinto e o desmantelo é o segundo disco do ex-vocalista do Cordel do Fogo Encantando, grupo cuja performance teatral e recitais poéticos guiaram a repercussão nacional. As batidas percussivas dão lugar a sonoridades harmônicas, guitarras com sintetizadores, instrumentos da música erudita e marcante solo de cravo do recifense Vítor Araújo em Pra fora da terra - além da standup drums (bateria tocada em pé) de Pupillo, da Nação Zumbi, produtor musical do disco e coautor de várias faixas. “Devido ao processo intenso no levantamento das músicas, perdi noção do que era meu e nosso”, diz, sobre os dois anos de produção. 

A experimentação melódica se intrica a versos psicodélicos e oníricos, com referências da mitologia, literatura fantástica, poesia do Oriente – especialmente da Pérsia – e a busca incessante pelo ineditismo. “Essa coisa de buscar o novo é impossível, mas é ela que me interessa. O impulso, a busca por uma metáfora, uma melodia nunca feita, um arranjo que surpreenda. Caracteriza meu trabalho”, diz.


O ouvinte é apresentado a um casal protegido na torre do relógio enquanto a cidade é destruída por tempestade de areia, em Vasto, a uma versão psicodélica de Trocando em miúdos, de Chico Buarque, em Desamar, e a um carro em chamas que vem do futuro para atacar a paz, em Ser. Com vocais de Céu, parceira da canção, Filtre-me tem clima de luz vermelha em roupagem dançante.



Referências fantásticas

Os artistas que serviram de inspiração para o novo disco de Lira

José Alcides Pinto 
Cearense, escreveu romance, poesia e dramaturgia marcados por experimentalismo, existencialismo e traços concretistas, como Tempo dos mortos (Topbooks, R$ 29).

José J. Veiga 
De escrita lúdica e ácida, completaria 100 anos neste ano e algumas obras serão relançadas, como A hora dos ruminantes (Cia. das Letras)

Attar 
Poeta e místico persa que viveu no século 12. A obra mais famosa é A linguagem dos pássaros (Attar Editorial, R$ 48), sobre a busca deles por uma ave mítica para se tornar rei.

Rumi 
Também persa, nascido no século 13, o poeta e mestre espiritual é um dos mais populares escritores islâmicos no Ocidente, com várias versões em inglês.

Waly Salomão 
Integrante da Tropicália e da contracultura, o carioca teve canções interpretadas por Caetano Veloso, Maria Bethânia e O Rappa.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

MÚSICA

 Conheça o solo de bateria que já foi usado 'em 1,5 mil músicas'

Amen, Brother é o lado B pouco conhecido de um disco lançado em 1969. Pouco notado na ocasião, um solo de bateria da faixa teve grande influência na música desde então, aparecendo em mais de 1,5 mil canções. Porém a banda que o criou nunca recebeu um centavo de direitos autorais.
"Me pareceu que aquilo foi um plágio, me senti roubado e estuprado", disse Richard L Spencer, principal vocalista da banda americana The Winstons, que gravou a faixa.
"Eu venho de uma era em que não se roubava as ideias das pessoas".
Leia mais: Qual o segredo do sucesso de 'A Noviça Rebelde'?
Nas últimas três décadas bandas dos dois lados do Atlântico usaram o solo de bateria da música Amen, Brother como fonte de inspiração.
Spencer se lembra do dia em que a canção foi gravada em Atlanta, Georgia, na primavera de 1969.
Os Winstons se trancaram em um estúdio tentando criar uma música para ocupar o lado B do compacto que lançaria sua nova música Color Him Father. Eles acabaram decidindo gravar uma música instrumental vagamente baseada em uma velha canção gospel chamada Amen, Brother.
Alguns dos elementos para a música vieram de uma melodia para guitarra que o lendário músico de R&B Curtis Mayfield uma vez tocou para Spencer. Mas isso era pouco, então o grupo decidiu aumentar a canção adicionando a ela um breve solo de bateria.
"A banda não queria ensaiar a música. Não estávamos lá para fazer algo 'original', éramos uma banda que tocava em bares. Os rapazes estavam um pouco aborrecidos, eles queriam tempo de lazer, então eu tive que acelerar as coisas", disse Spencer.


Na metade da música os outros instrumentos silenciaram no momento em que o baterista G.C. Coleman continuou durante quatro compassos. "Em 20 minutos nós tínhamos uma música", afirmou.
Mas a real autoria do "solo" - na verdade, mais uma "levada" de bateria do que um solo propriamente dito - não é algo claro. Spencer disse que foi ele quem dirigiu a criação. Já Phil Tolotta, o único membro da banda ainda vivo além do vocalista, discorda. Ele afirmou que o solo seria criação exclusiva de G.C. Coleman.
A música Color Him Father, no lado A do disco, se tornou um dos 10 maiores sucessos do R&B nos Estados Unidos em 1969. Ela até ganhou um prêmio Grammy no ano seguinte, enquanto Amen, Brother seguiu desconhecida na época.
Apesar do sucesso nas paradas, os Winstons enfrentaram dificuldades sendo uma banda de etnia mista tocando no sul dos Estados Unidos. O grupo se separou nos anos 1970.

Era do 'sampler'

Porém, muitos anos depois, o solo de bateria de Amen, Brother influenciou uma nova geração de músicos.
Na metade dos anos 1980, com a popularização, no rap e hip hop, da criação de ritmos a partir de samples - amostras sequenciadas - copiados de discos alheios, a batida de Amen, Brother foi redescoberta.
"Uma das primeiras coisas que essa cena permitiu foi a reutilização de material gravado no passado", disse Nate Harrison, um artista e acadêmico que fez um documentário sobre esse solo de bateria.



O trecho pode ser ouvido na música I Desire, de um álbum lançado em 1986 pelo grupo de rap de Nova York Salt-N-Pepa.
Alguns anos depois, ele aparece na música Words of Wisdom de uma outra banda de Nova York conhecida como Third Base. Ela também aparece em uma música do grupo NWA, em 1989.
No início dos anos de 1990, produtores musicais britânicos se inspiraram no que vinha sendo feito nos Estados Unidos. Sucessos antigos receberam releituras e a batida, agora conhecida como Amen break, passou a ser amplamente explorada foi explorada pelos DJs e produtores ligados ao gênero musical jungle.
Mais tarde, a levada recebeu atenção especial da mídia quando o grupo Oasis a copiou em sua música Do You Know What I Mean, de 1997. No mesmo ano, ele apareceu na canção Little Wonder, de David Bowie.
Ao longo dos anos se tornou um dos sucessos de bateria mais copiados da história.

Mistura perfeita

Então, por que esses seis segundos de solo se tornaram tão populares?
Segundo Harrison, o que faz o trecho ser tão copiado é a mistura perfeita de som de características orgânicas e robóticas.
"O ritmo é sincopado e há diversas variações na bateria que você pode fazer a partir da amostra original. Ele é propício para cortar e rearranjar. E tem uma pegada única", disse.
"Ele é a espinha central de muitas músicas. Tanto músicos de hip hop como de drum and bass fizeram muito dinheiro dele".
Mas nenhum dos integrantes dos Winstons recebeu dinheiro por direitos autorais. Nos anos de 1980, o uso de amostas de canções era um assunto cinzento na área jurídica. Hoje os músicos têm que pedir permissão para o artista original ou o detentor dos direitos autorais.


Coleman desenvolveu um vício em drogas e morreu como morador de rua em Atlanta, em 2006. Spencer disse acreditar que ele nunca teve ideia do impacto da levada criada por ele décadas antes.
Atualmente, uma campanha está levantando fundos para Spencer, que detém os direitos autorais de Amen, Brother. Criada pelos DJs Martyn Webster e Steve Theobald, a campanha está tendo mais sucesso que o esperado ao ser apoiada por fãs e músicos de sucesso.
Até agora foram arrecadados mais de US$ 26 mil.
"Trata-se de devolver a um homem de 72 anos que tem problemas do coração que nunca viu um centavo de seus direitos autorais", disse Theobald.
Spencer se aposentou da música há mais de 40 anos. Hoje ele escreve romances e vive na Carolina do Norte. Apesar de ter ficado incomodado com u uso indiscriminado de sua obra, hoje ele diz estar em paz com isso.
"Não foi a pior coisa do mundo. Sou um homem negro na América e o fato de que alguém querer usar algo que eu criei é lisonjeiro". Ele também se disse emocionado pela campanha.
"Eles não tinham que fazer isso – eu nem os conheço. Cinquenta anos depois, alguns garotos brancos que eu nunca encontrei vêm do outro lado do mundo e dizem: "Vamos te dar um presente". Isso é provavelmente uma das coisas mais doces que me aconteceram em um longo tempo".
Informações: Ellen Otzen da BBC News

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Agenda: Diogo Nogueira e Hamilton de Holanda vêm ao Recife

Do diário de Pernambuco 

Os meandros do samba são revisitados por Diogo Nogueira e Hamilton de Holanda neste fim de semana. Os dois músicos cariocas apresentam show inspirado no CD Bossa negra de sexta-feira (28) a domingo, às 21h, no Manhattan Café Theatro.

Diogo, filho do portelense João Nogueira, escutou samba como quem ouve canção de ninar. Não por menos: os Nogueira fazem música há pelo menos cinco décadas. Já Hamilton é metade pernambucano, carioca e brasiliense. Nas andanças, ele descobriu cedo o dedilhado do bandolim e aprendeu a exprimir o sentimento em um abecedário de composições.


A quilômetros de casa, Diogo e Hamilton se cruzaram nos palcos norte-americanos. A latinidade de Miami inspirou os dois a lançar um projeto em parceria. Nostálgico e revelador, o CD Bossa negra surgiu de um batuque inocente. Uma faísca de gingado e inspiração. "Na verdade, a ideia de fazer o disco surgiu num show, em 2009. Depois da energia que a gente trocou no show, a gente ficou dentro do camarim, conversando em fazer um projeto novo, diferente", diz Diogo Nogueira.

Escute a versão de O que é o amor



"Aí a gente começou a cantar afro-samba. Dali mesmo, surgiu o nome 'Bossa negra'", lembra Nogueira. E Hamilton não esquece o destino: "depois de cinco anos, a gente se encontrou". À roda, juntaram-se o baixista André Vasconcelos e o percussionista Thiago da Serrinha para produzir o álbum, que comemora o centenário legado do samba sem perder a influência arejada da bossa.

Crítica

O álbum passeia por Baden Powell e Vinícius de Moraes. Vai de Paulinho da Viola a Martinho da Vila. E os agudos de Beth Carvalho e Alcione vêm na onda sonora. Por isso, Diogo Nogueira e Hamilton de Holanda nem contam nos dedos as influências que trazem da carreira musical, sem deixar, porém, de imprimi-las no CD.

A umbigada e o passado rítmico dos afro-sambas também deram margem à música de protesto. Nas faixas, o tom político vem na música "abre-alas", Bossa negra - composição dos dois músicos -, que externa a representação do negro na formação da brasilidade. A canção Brasil de hoje e a escolha de Mundo melhor - de Pinxiguinha - também se enquadram nessa categoria.

"Um CD que foi feito com o coração. A gente se encontrou para criar o disco, e as composições têm um caminho musical muito brasileiro", fala Hamilton. De cor e de alma, Bossa negra se rende ao memorialismo que fez uma produção musical passar de criminosa para outro estandarte, o de identidade de um povo.

Entrada

A estreia da turnê de Bossa negra foi no Rio de Janeiro, nos dias 26 e 27 de agosto. Depois, o samba seguiu para São Paulo e Curitiba. Agora, no Recife, os ingressos custam R$ 210 (ingresso único). O Manhattan Café Theatro fica na Rua Francisco da Cunha, 881, no bairro de Boa Viagem. Informações: 3325-3372.