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Mostrando postagens com marcador Crônicas por Tais Luso. Mostrar todas as postagens
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segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Crônicas do cotidiano

Como nasceu o Poema Pasárgada - de M. Bandeira


* Tais Luso 
Vou-me embora pra Pasárgada” foi o poema de mais longa gestação da obra de Manuel Bandeira. Conta ele, que viu pela primeira vez esse nome de Pasárgada quando tinha 16 anos, e foi num autor grego. Pensava ter sido em Xenofonte, mas vasculhou duas ou três vezes a Ciropédia e não encontrou a passagem. O douto Frei Damião Berge informou-lhe que Estrabão e Arriano (autores que nunca leu), falaram na famosa cidade fundada por Ciro - o antigo - no local preciso em que vencera Astíages.

Ficava a sueste de Persépolis. Esse nome de Parságada, que significa 'Campo dosPersas', suscitou na imaginação de Manuel Bandeira uma paisagem maravilhosa, um país de delícias, como o de L' Invitation au Voyage, de Baudelaire. Mas vinte anos depois, quando ele morava na rua do Curvelo, num momento de muito desânimo, da mais aguda sensação de tudo o que não tinha feito em sua vida por motivo de doença (tinha tuberculose), saltou-lhe de súbito do subconsciente esse grito estapafúrdio: “Vou me embora pra Parságada”.

Sentiu na redondilha a primeira célula de um poema e tentou realizá-lo, mas fracassou. Naquele tempo já não forçava a mão. Abandonou a ideia. Alguns anos depois, em idênticas circunstâncias de desalento e tédio ocorreu-lhe o mesmo desabafo de evasão da 'vida besta'Desta vez o poema saiu sem esforço, como se já estivesse pronto dentro dele.

'Gosto desse poema porque vejo nele, em escorço, toda a minha vida, e também porque parece que nele soube transmitir a tantas outras pessoas a visão e promessa da minha adolescência – essa Parságada onde podemos viver pelo sonho o que a vida madrasta não nos quis dar. Não sou arquiteto, como meu pai desejava, não fiz nenhuma casa, mas reconstruí, e não como uma forma imperfeita neste mundo de aparências, uma cidade ilustre, que hoje não é mais a Parságada de Ciro, e sim a minha Parságada'.

       
      Vou-me embora pra Pasárgada


      Vou-me embora pra Pasárgada
       Lá sou amigo do rei
       Lá tenho a mulher que eu quero
       Na cama que escolherei
       Vou-me embora pra Pasárgada

       Vou-me embora pra Pasárgada
       Aqui eu não sou feliz
       Lá a existência é uma aventura
       De tal modo inconsequente
       Que Joana a Louca de Espanha
       Rainha e falsa demente
       Vem a ser contraparente
       Da nora que nunca tive

       E como farei ginástica
       Andarei de bicicleta
       Montarei em burro brabo
       Subirei no pau-de-sebo
       Tomarei banhos de mar!
       E quando estiver cansado
       Deito na beira do rio
       Mando chamar a mãe-d'água
       Pra me contar as histórias
       Que no tempo de eu menino
       Rosa vinha me contar
       Vou-me embora pra Pasárgada

       Em Pasárgada tem tudo
       É outra civilização
       Tem um processo seguro
       De impedir a concepção
       Tem telefone automático
       Tem alcaloide à vontade
       Tem prostitutas bonitas
       Para a gente namorar

       E quando eu estiver mais triste
       Mas triste de não ter jeito
       Quando de noite me der
       Vontade de me matar
       — Lá sou amigo do rei —
       Terei a mulher que eu quero
       Na cama que escolherei
       Vou-me embora pra Pasárgada.

       Uma Antologia Poética L&PM Pocket pág 89.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Mas que mundo tu vives, criatura?

Por Tais Luso

Esse chavão, que coloquei como título da crônica, além de cafona é irritante, pois mostra uma pretensão descabida, um ego insuportável, controlador e senhor de todas as ideias. Mama mia... Vejo isso em muitas cantos por aí. Embora eu não seja movida a ódio, isso me incomoda. É o caso de segurarmos nossos instintos mais primitivos – relembrando o delator do mensalão.

– Mas em que mundo tu vives, criatura?

É, odeio agressões. Essa atitude despirocada e megalomaníaca causa uma certa indigestão em qualquer um que tenha o sangue um pouco quente. É como chamar alguém de burro sem necessidade.

Após um ato desses, muitos não se entendem mais, vira papo de primatas. Acho ótimo quando duas pessoas conseguem se entender sem ofensas e num mesmo nível de educação. É impossível conversar com aloprados, até num papinho sobre a conhecida e falada política do Brasil em que o mundo inteiro está por dentro. Quando muita coisa já está transparente. Que não há mais mistério.

Quando damos nossa opinião não quer dizer que seja a única, ou a certa. É apenas uma opinião: a nossa. Um direito à liberdade. E quando ouvimos o tal chavão, olho no olho, e paramos pra pensar, a coisa muda de figura. Dá uma vontade imensa de destrambelhar. O que não vale a pena.

A obsessão de mandar contra tudo sem ponderar nada, colocando uma arrogância acadêmica numa conversinha de boteco, não cabe. O que era para ficar simples toma proporções enormes, tudo muito grandioso para uma conversa curta e despretensiosa.


Acaba enchendo o saco e estragando a festa.

Crônicas do cotidiano é escrito por Tais Luso, que reside em Porto Alegre e escreve uma vez na semana suas histórias e contos.  

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Crônicas do Cotidiano

Um alegre encontro 

* Tais Luso

Quem consegue ser feliz no lugar em que mora, ver beleza na simplicidade do cotidiano, já é meio caminho andado para achar, no final, que valeu a pena. Moro no meu bairro desde minha juventude. Ao caminhar entre as grandes árvores, prédios e casas antigas sinto-me feliz. Casei e fiz meu ninho por aqui. E aqui também morava meu marido.

Hoje, após o almoço, caminhando em direção ao Correio, Pedro e eu fomos interrompidos, bruscamente, por um homem que já avançava os 80 anos. Eta bichinho esperto e alegre! Chegou já cortando a nossa frente e, com sua voz forte, e olhando nos nossos olhos disse:

Oh! Que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!

Ficamos meio assustados, assim na rua... Isso foi inédito. Mas mal acabou e eu disse rapidinho, apontando para ele: Casimiro de Abreuuu!!! E nós três caímos num riso gostoso, assim, sem nos conhecermos, apenas enlaçados pelo poema que ele declamava, faceiro da vida. Nem considerei  se o homem estava meio fora da casinha...

Mas jamais diria pobre do velhinho... Digo que rico e alegre homem! Que encontro simpático. E continuou seu trajeto, enquanto nós dois atravessamos a rua, rindo. Amo esse bairro atípico, lindo e tradicional. Sempre encontro coisas do arco por aqui.

É aqui que entro e saio dos lugares e sou chamada pelo meu nome; é aqui que dizem leva... paga depois! É aqui que, mal saio do meu prédio, me perguntam sobre meu cachorro,  meus filhos, meu marido; é aqui que muitos se dizem saudosos de meus pais e lembram de meus avós.

Quero encontrar o declamador, novamente. Quero sentir alegria pelas ruas do bairro que é a extensão da minha casa.

Mas no próximo encontro direi para o nosso declamador que aqui é Parságada; é   aqui que somos felizes e amigos do rei...

Crônicas do cotidiano é escrito por Tais Luso, que reside em Porto Alegre e escreve uma vez na semana suas histórias e contos.  

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Crônicas do Cotidiano

Internautas Sofredores 

Imagem ilustrativa 
Por Taís Loso 

Estou conformada em fazer parte da geração dos Internautas sofredores. Ainda mais nós, os blogueiros, que usamos editor de texto  e que inúmeras vezes ficamos surpresos com coisas que  aparecem ou desaparecem - sem razão alguma. Mesmo assim  somos felizes diante desse rolo todo.

Há muitos anos os blogs eram diferentes, toda a montagem para introduzir ou modificar algo  era por meio de tags (códigos) – coisas muito trabalhosas, perdia-se tempo e íamos quase à loucura. Mas os provedores foram se modernizando, tornando as coisas mais fáceis. Tornei-me adepta dessa ferramenta oferecida por uma tecnologia moderna para escrever um pouco sobre nosso cotidiano, nossos costumes. Quando eu estiver numa 'outra' - não sei se boa ou não -, talvez fique rodopiando por aqui uma parte boa de mim.

É bom escrever, ter contato com as pessoas; faz bem pensar, e eu me divirto em algumas postagens, outras nem tanto, pois coloco também indignação e perplexidade – o que não serve bulhufas. Apenas para desabafar, pois moro num país em que o povo precisa matar um leão por dia para que tudo corra dentro do mais ou menosPor certo não gostaria de mudar de país, eu gostaria de ver meu país mudar – como disse o jornalista Políbio. E assim vou levando e cumprindo o que postei no meu perfil, ciente de que todos nós temos algo a dizer, uma vontade de largar o que está preso no peito. Então...

'Escrever é a maneira mais fácil de dizer as coisas sem ser interrompida.'

Pois ontem, tudo certinho comigo e meu pc quando de uma hora pra outra, meu editor de texto resolveu apagar o que eu escrevia, e o som foi para o espaço, justamente quando eu estava assistindo uns vídeos no Youtube dos jornalistas Políbio Braga e Olavo de Carvalho, sobre umas coisinhas do nosso país e da nossa gente...

Fui aos fóruns dos sites de ajuda, e um pelotão de Internautas desesperados e enlouquecidos pedindo ajuda. Centenas de Por favor, me ajudem!

Constatei a ansiedade dos colegas pedindo socorro, e também a solidariedade, uns dando dicas aos outros. Estamos bem informatizados, porém vivemos numa época de muito estresse gerado por todo esse maquinário que nos cerca. Tudo é máquina, tudo é virtual, que passou a ser o nosso real.

Mas consegui ajeitar, descobrir, mesmo levando uma tarde inteira. O mais difícil foi formar a rede dos computadores novamente, pois tudo tinha ido pro brejo. Mas foi na base da persistência que conseguimos, eu e Pedro (sozinhos) restabelecer a rede, encontrar o som e arrumar o editor de texto.
Mais uma lição que ficou: a 'Persistência'! Benza Deus!

Eu gosto da frase (apesar de batida)  “nunca desista dos seus sonhos”! 

Mas hoje eu diria: nunca desista de acertar seu computador: vá à luta, tente! Se não der, aí chame o "homi"...

Até a próxima.

sábado, 1 de agosto de 2015

Crônicas do Cotidiano

 O arroz - Doce precisa de solidão 

Por Tais Luso

Calma!! Sei que é difícil para entenderem o título da crônica, confesso que puxei por todos os meus neurônios para descobrir o sentido da coisa, logo eu que fui a vítima. Com 200 anos de casamento nas costas, não conheço totalmente as ideias filosóficas de meu marido.

Quase todos os dias almoçamos fora, nos restaurantes que oferecem dezenas de pratos diferentes, ao gosto do freguês. Mas nos reeducamos, escolhemos apenas 4 variedades para não fazermos um prato de cachorro louco. Combinamos os sabores entre si.

Porém, chegando na mesa das sobremesas, vários doces apetitosos mexeram com meus sentidos: adoro ambrosia, arroz-doce, creme de nozes, sorvete, mousse de maracujá e tantos outros. E tinha tudo isso. E resolvi me servir de arroz-doce com um pouquinho de creme de nozes por cima... Meu marido aproximou-se de mim e disse baixinho, mas com insistência, aquela coisa de marido sabichão:

– Não faça isso, o arroz-doce precisa de solidão!

Solidão? Sacudi meus neurônios e arrumei meus hormônios para ter a certeza de que estava apenas num restaurante, e não escutando Sócrates – com o seu célebre 'só sei que nada sei'; ou Aristóteles tentando me dizer que 'a verdade estava à minha volta'.

Difícil de entender a solidão do meu arroz-doce! Olhei pro meu marido, numa linguagem meio tosca, própria daqueles que têm fome e disse-lhe:

– Me deixa comer, caramba!!!

E levei meu doce junto ao peito, cuidado, idolatrado, como se fosse uma criança cuidando de seu brinquedo. Maravilha, arroz-doce com molho de nozes!
Depois que comi, virei para ele e cobrei uma explicação: o que você quis dizer com arroz e solidão? Nunca senti solidão...

– Não é você, é o doce! Arroz-doce não pede acompanhamento a não ser canela em pó, você descaracterizou o doce, entendeu?

– Ah, sim, entendi a solidão… Mas você não pensou na solidão do molho de nozes? Eu lhe dei vida juntando-o ao arroz…Até  acho que foi um encontro feliz!

Logicamente saímos rindo, nenhum de nós baixou suas armas, e tudo por causa de um doce! Enxerguei meus doces com outro olhar: dois companheiros que se completaram...

Enquanto isso, meu marido lambuzava-se com o mesmo arroz-doce, servido apenas com canela e numa filosófica e amarga solidão!
Vá entender...

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Crônicas do Cotidiano

O Fim da Fotografia ?

-  por Tais Luso

Meus álbuns poderão fazer parte de museus. Hoje é um cerimonial folhar um álbum, ver fotos da juventude, formaturas, casamentos da família, festas... Mas a luta é inglória, o pessoal só quer saber de fotos no Smartfone, Tablets e aparentados. E dos últimos acontecimentos em Selfie. Nunca vi tanto autorretrato. Tantas caras e bocas. 

Minha geração (longe de ser do período paleolítico) ainda teve o privilégio de tirarfotografia. De manusear uma máquina profissional. De tentar fazer Arte fotográfica.
Ao ler uma entrevista na revista ISTOÉ, com o genial mineiro Sebastião Salgado, me bateu a nostalgia de um adeus. Cedo ou tarde teremos a despedida, segundo ele. A 'fotografia' está no seu final. Ele fala em fotografia profissional que passa por uma técnica própria, por processo especial da impressão, edição, um manuseio especial em laboratório. E uma técnica aprimorada. Tive o prazer de entrar num estúdio de revelação e ver o processo, a elaboração de uma fotografia.

Em seu último trabalho, o fotógrafo coloca o planeta à nossa disposição; os lugares mais fascinantes da Terra, difícil de chegar, difícil de fotografar, emocionante de ver. Oito anos de trabalho intenso para compor a obra Genesis.

'Descobri que 46% do planeta ainda está como no dia da gênese' - relatou Salgado.

Interagiu ao longo de 40 anos com culturas fantásticas, registrando pessoas, fauna, flora e contribuindo para preservação do planeta. Pelo menos tentando. Seu próximo trabalho será sobre as tribos indígenas brasileiras – grupos antigos, remotos e intocados pela civilização - ainda. Pelo menos 100 grupos nunca foram contactados. Deverá ser um trabalho minucioso e fantástico.

Mas, pra não dizer que só falei de flores e não coloquei uma pimentinha no texto, pergunto se algo bem contemporâneo não ficará registrado nos anais da história da fotografia dita imagem: falo do horroroso, deselegante e cafona pau de selfie. É uma invenção sui generis. Até em casamento já foi usado, e pelo padre! Não há dúvida que ficou exótico.

Porém está com seu uso proibido nos vários parques temáticos dos Estados Unidos, de Paris e Hong Kong, o que alegam representar um perigo para a segurança de seus visitantes e empregados. Essa medida se estende, também,  a vários  museus. (ZH-27/6/2015).

Não faz muito que li um artigo escrito por um especialista em ciência de computação, que deu para perceber a despreocupação das pessoas a respeito do seu resguardo (ZH 14/6/2015). Não há dúvidas que elas não se dão conta do grande risco que correm com a exposição de tantas fotos nas redes. Pela facilidade, o ato se torna inconsequente. Mas como já virou uma paranoia, ninguém pesa as consequências. Mas pode virar um incômodo tamanho família. A vaidade humana não tem limites, está por demais escrachada.
Já existem, nos Estados Unidos, estudos com jovens que já se encontram doentes e insatisfeitos porque a tal selfie não lhes agrada nunca! E tais fotinhos precisam ser aprovadas nas redes sociais. Este é um dilema que virou obsessão por uma grande parte de pessoas. Enfim, os tempos são outros... Mas a arte, a criação e a emoção são coisas diferentes. Ficarão para sempre como relato da história da humanidade.


Protesto na Praça da Paz Celestial
Um jovem durante o protesto na Praça da Paz Celestial, na China, que fez parar uma fileira de tanques de guerra. A identidade do jovem é desconhecida até hoje. Em 2000, o mesmo jovem  foi eleito pela revista Time uma das pessoas mais influentes do século XX.



Solidariedade
A foto revela um gesto de solidariedade de um missionário em Uganda - 1980. 
A foto ficou registrada como a melhor foto daquele ano, sem que o fotógrafo soubesse...


A menina e o abutre
Essa foto emocionou o mundo, pois retrata a calamidade da fome na África, causada pela guerra civil. A tomada da foto foi feita em uma aldeia no Sudão (1993) e mostra um abutre observando uma criança desnutrida que aparentava esperar a morte e viraria alimento da ave. A foto rendeu ao fotógrafo o Prêmio Pulitzer. Contudo foi muito criticado por não ter ajudado a criança. Pressionado pelo sentimento de culpa, Carter  suicidou-se em 1994, aos 33 anos. 

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Crônicas do Cotidiano

Os Homens já podem chorar 



- Tais Luso de Carvalho

Nas minhas improdutivas noites de insônia, liguei o rádio e escutei um programa sobre as mulheres, os homens e o trabalho doméstico. Naturalmente os homens entraram na pauta,  lembrei de algumas peculiaridades deles e outras nossas.

Sabe-se que mulher tem uma visão periférica mais ampla, vê tudo ao redor, e isso ajuda muito. E, quando possui uma enorme determinação, torna-se vítima dela mesma:

- Eu posso, eu consigo, eu me estrebucho, mas eu faço!

E abraça a causa do tamanho que for. No começo, cheia de amor. Depois vai na raça.

Será que os homens conseguiriam cuidar ao mesmo tempo dos filhos, da comida, atender o telefone, campainha, gás,  cachorro e ainda investigar o porquê da enorme zorra do papagaio? E qual o motivo da casa virar uma central de patetas quando nós, mulheres, adoecemos por alguns dias?

Sabemos que trabalho de casa é exaustivo e que só aparece quando 'não’ é feito. Quando a casa fica anarquizada aparecem umas visitinhas com a língua solta e os olhos num silencioso diagnóstico… Pô, que bagunça!! Que mulher porca.
Pronto, tá feito o embrulho, não há mulher que não decifre certos olhares.

Mas as coisas já melhoraram, e muito. Não há mais preconceito quanto ao homem ajudar nas tarefas da casa. Uma boa parte das mães cessaram com aquela coisa medieval de que homem não pode, homem não chora, homem é homem! Hoje, ao contrário, todas adoram um homem na cozinha. Homem que era homem tinha de engolir sentimentos na dureza. Nada de mariquice – coisa de mãe não evoluída. Mas essa evolução não é vista em todos os lugares. Em muitos, o tempo parou. Feliz da mulher que tem ao seu lado um companheiro e não um escudeiro.

Homem era força, era determinação e bom de briga. Não havia campo para levezas, sutilezas e sentimentalismos. Mas hoje, tem muito pai se virando bonito, trocando fraldas etc. É sensacional quando o homem adquiri uma consciência de cuidar e dividir algumas tarefas de casa. Ser mais parceiro, mais sensível. É bom ver o homem inventar comida, participar da cozinha, ser solidário, escolher coisas para decoração. Mulher gosta dessa cumplicidade. Tudo isso aproxima e dá ao homem uma dimensão mais familiar, mais humana à sua vida.

Ótimo que muitas mães  estão educando os filhos com a razão e com o coração, deixando vir à tona belos sentimentos, principalmente o de permitirem que seus filhos chorem – o que comove  qualquer mulher. Homem quando chora é porque a coisa está doendo mesmo, seja no corpo ou na alma. E para mim, não há extravasão que comova mais. Não há lágrimas de homem que não balance o coração de uma mulher e a faça chorar junto. Se queremos homens sensíveis é necessário deixar que seus sentimentos aflorem. E que possam manifestá-los.
Que bom que os homens já podem chorar.

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Crônicas do Cotidiano

Traduzi-se / Ferreira Gullar  

Obra -  Ferreira Gullar


Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?

Como crítico de arte e pensador, Ferreira Gullar está entre os mais lúcidos escritores da atualidade. Seus textos têm clareza e a sagacidade dos que indicam caminhos e denunciam falácias que se revelam em discursos políticos ideológicos como também nas bienais de arte. Sua poesia é fruto de uma sensibilidade erudita, lírica e social. Sua poética é capaz de traduzir, além das angústias do homem contemporâneo, os fecundos silêncios que alimentam seus próprios conflitos, inquietações, tristezas e alegrias.

Ferreira Gullar na coluna de Nelso Motta

Acessem: >> http://bit.ly/1dtfsj9

* Por tais Luso.

terça-feira, 14 de abril de 2015

Crônicas do Cotidiano

Lição de vida 


Por Tais Luso 

Moro num lugar alegre e arborizado, e mesmo assim faz parte da minha vizinhança um dos maiores hospitais da América do Sul. Onde moro tenho, de graça, fatos e fotos que só me acrescentam: tenho aulas sobre valores, atitudes, solidariedade, metas, realidade, futilidades, sonhos desfeitos... Tudo me é dado de graça: uma amostra do muito e do pouco que posso ser como pessoa.

Desço e vejo uma criança paraplégica, com a mãe ao lado, cobrindo seu filho de carinho, e que dependerá a vida toda de alguém. Ela me olha e eu baixo a cabeça. Senti-me constrangida, não pelo fato em si, mas pelo seu sofrimento presente e futuro. Por saber que aquela 'dor' será para sempre. Evitei de falar com os olhos.

Vejo pessoas idosas, já na última instância de suas vidas nostálgicas e sem sonhos, apenas esperando... Vejo gente lutando para sobreviver, clamando por mais um tempinho de vida; vejo, nas minhas andanças - perto do hospital -, crianças saindo da quimioterapia, gente acompanhando seus doentes. Tenho essas amostras, de luta pela vida, todos os dias. Tenho sempre o que aprender dia-após-dia. E isso, sem querer, vai me dando outra visão das coisas, da vida e das pessoas. E posso traçar parâmetros para mim. Isso faz com que eu dê valor unicamente ao que tem valor.

Saio de uma realidade e vejo a outra: gente discutindo e se incomodando por um armário de cozinha que ficou com um tom acima do idealizado, dando um valor excessivo à matéria. Vejo gente falando do pedigree de seus cães querendo desmerecer os outros animais; vejo gente que se descuida em ser mais ética; vejo brigas enormes em inventários, com pessoas achando que estão sendo logradas; pego o carro e vejo pessoas discutindo porque o outro fez uma manobra infeliz. Vejo de tudo um pouco. E aí lembro do hospital, meu vizinho.

Acho que não há melhor escola do que a minha  e procuro nunca faltar às aulas... Não quero repetir certas matérias.


Só não aprendi, ainda, a lidar com a dor física sem chorar muito e achar-me injustiçada. Nenhum ser deveria passar por dor física e, muito menos ser submetido à tortura.

quinta-feira, 26 de março de 2015

Protesto no Brasil


- Tais Luso

Nunca imaginei em ver o que estou vendo agora no meu país. Cenas chocantes, caóticas, inacreditáveis, vergonhosas e que saem em todos os principais jornais do mundo. Eu tenho vergonha na cara, sou brasileira. E gostaria de viver num país saudável, sério – no mínimo.

Sufoquei as lágrimas ao ver aquele povo imenso na manifestação do dia 15 de março em várias cidades do país. Um milhão de pessoas na Av. Paulista / São Paulo e mais milhares no resto do país. Por que será que muitos foram às lágrimas? De vergonha, de indignação? Ou um patriotismo abalado, humilhado? Não sei dizer.

Jamais imaginei ver tantas caras-de-pau roubando e confessando ter roubado - sob pressão -, mas tranquilos, como se estivessem passando uma receita de bolo no programa da Palmirinha, estampando um ar meio abobalhado em seus rostos.

Com cara de quem estava por fora de tudo, um dos tantos milionários da Petrobras respondia às perguntas na CPI como se fosse inocente, enquanto que o outro, no dia seguinte, entrou  mudo e saiu calado. E o povo com cara de cachorrão. Caído e pobretão.

E as críticas, das mais pesadas, aliás como tudo que está acontecendo, e tendo como berço esplêndido, a rica Petrobras, agora moralmente desvalorizada. O povo na rua é o único orgulho que resta à Nação. Temos de 'pelear' – como dizemos aqui no Rio Grande do Sul, resgatar nossa soberania, nosso orgulho.

Estou numa neura de cão com esses noticiosos e CPIs. Tinha jurado em não ver mais nada. Pra quê? Caso eu fique louca, tenho motivos, me tratem com carinho. Cada dia temos mais novidades. Nossos políticos são criativos e dissimulados. Alguns estão abrindo a boca porque levarão vantagens na tal delação premiada. Muitas vantagens. Por outro lado, estamos conhecendo toda a turma dos irmãs metralhas.
E da Presidenta, só escuto dizer que a corrupção veio de governos anteriores... Mas isso não interessa, minha senhora, seu partido está há 12 anos com a faca e o queijo na mão! Só falta dizer que essa  corrupção toda, que se alastra como sarna, chegou com as caravelas em 1500. E como tal, nada se pode fazer. 

Não surgiu até agora nenhum remédio que combata essa praga; sequer uma vacina para essa vergonha nacional que há muito tempo estamos aguentando. E o blá-blá-blá vai longe.
Sou povo brasileiro,  protestando pacífica e democraticamente.

"Escrever é a maneira mais fácil de dizer as coisas sem ser interrompida. _ E é ótimo!" -Tais Luso.

quarta-feira, 18 de março de 2015

Crônicas do Cotidiano Por Tais Luso

- Tais Luso

A vida é feita de histórias. Umas hilárias, outras tristes, esdrúxulas, trágicas e outras... Outras não sei como classificar. É só pensarmos em alguém e lá tem uma história de vida. E essa que contarei é uma história de uma conhecida; das tantas que encontro na minha rua quando passeio com meu cachorro. Todos somos vizinhos de quarteirão. Uma hora em que os cachorreiros se encontram e contam as novidades. E desgraças.

Essa minha conhecida tem um filho: o anjinho tem 35 anos e uma namorada, cujo relacionamento já tem 2 anos. Porém, ele adora uma sala de Chat, até que deu de cara com uma moça da Hungria. É, lá do outro lado... Mas na Internet tudo fica perto.

Ficaram muito amigos, contou-me a conhecida. Todos os dias se comunicam pelo Face, ele mostra o Brasil, ela mostra a Hungria. E a amizade foi crescendo… E virou outra coisa, que minha conhecida temia.

Bem, já faz 6 meses e a garota quer vir ao Brasil para conhecer o tal moço e por aqui morar algum tempo, e talvez com ele! Mas o caso é que a sua namorada daqui, está montando apartamento para morarem juntos. E está grávida!

O que está neurotizando essa minha conhecida, é que a moça da Hungria já está com a passagem na mão! Claro, o rapaz não bate bem das bielas, e não fica em emprego nenhum. Está desempregado. E resolveu enlouquecer a mãe. Não sabe o que fazer a não ser entrar em crises.

- E agora Zé? - disse a minha conhecida olhando pra mim.

Dizer o quê? Esconda a namorada numa toca ou  pegue uma mala e fuja? Cruzes.

O rapaz está passando por descompromissado, pois a moça da Hungria não sabe que o anjinho em breve vai ser papai!

Minha conhecida também está em crise: está pensando em mudar-se e deixar a bomba explodir no front. Enquanto o trio se vira, ela some.

Está pensando em pegar todas as suas roupas e tralhas pessoais e se mudar para um apart-hotel, longe da zona de conflito... afinal, a coitada é cardíaca. 

Aliás, acho que eu faria a mesma coisa, afinal, o mimoso tem 35 anos,  fez um filho que ainda não nasceu e não aceita conselhos!
Espero que a gente se encontre por esses dias; quero saber o rumo das coisas. Toda história tem um final, e essa minha curiosidade também faz parte da vida.
Normal.

 "Escrever é a maneira mais fácil de dizer as coisas sem ser interrompida. _ E é ótimo!" -Tais Luso.