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quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Crônicas do Cotidiano

Super Adrenalina 


 - Tais Luso

Como não tenho nenhuma intenção de arriscar minha vida, em situações de risco buscando superações, pensei naqueles que lutam por suas vidas enfrentando hospitais, doenças, mutilações ou outros se arriscando em trabalhos sem a mínima segurança - ainda hoje sofrem essa exploração. 

Pensei, também, em pessoas, inclusive da minha família, que suportam um tratamento quimioterápico, para continuar a viver. Se há o que respeito é a minha fragilidade, a minha pequenez diante da grandeza do que me foi dado - a vida. E estou longe de entender os mistérios dela, como também os mistérios de qualquer ser humano com suas infinitas variantes e complexidades. A conhecida foto acima - 1930 -  sempre me foi  muito inquietante...

Difícil de entender como alguém consegue desafiar o perigo ou a morte, como se viver - em algumas metrópoles - não fosse um convite a uma adrenalina nada pequena. 

Todos são livres. Nunca disse a ninguém para viver como uma ameba. Podemos viver mil emoções, mas que não colocam nossa vida em risco. Mas muitos sentem atração pelo desafio, pelo perigo. Se forem feliz assim, adiante! Respeito todas as tentativas de felicidade.

Penso que esse modelito do vídeo (abaixo) é o que existe de mais moderno para aqueles que procuram por fortes emoções num parque de diversões.. Vejam a sincronização, a genialidade desses brinquedos, principalmente do último; é excitante para uns, e apavorante para outros. Comparando com minha época de parques, o que tínhamos era considerado um Ford de Bigodes.

Você se arriscaria a dar uma voltinha no último brinquedo? Vá, coragem!

Porém, se você tem Cinetose, ou alguma doença de risco, nem pense. Cinetose é uma disfunção conhecida como enjoo de movimento, é um quadro intenso de náuseas, com ou sem vômitos, que ocorre em algumas pessoas, seja dentro de um automóvel, avião, trem ou barco. É uma sensação de morte. 
Mas antes, tome uma caixa de Dramin. Assim você dorme e não vê nada.



Tais Luso, é escritora e escrever em seu blog, nas quintas-feiras.

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Crônicas do cotidiano

Como nasceu o Poema Pasárgada - de M. Bandeira


* Tais Luso 
Vou-me embora pra Pasárgada” foi o poema de mais longa gestação da obra de Manuel Bandeira. Conta ele, que viu pela primeira vez esse nome de Pasárgada quando tinha 16 anos, e foi num autor grego. Pensava ter sido em Xenofonte, mas vasculhou duas ou três vezes a Ciropédia e não encontrou a passagem. O douto Frei Damião Berge informou-lhe que Estrabão e Arriano (autores que nunca leu), falaram na famosa cidade fundada por Ciro - o antigo - no local preciso em que vencera Astíages.

Ficava a sueste de Persépolis. Esse nome de Parságada, que significa 'Campo dosPersas', suscitou na imaginação de Manuel Bandeira uma paisagem maravilhosa, um país de delícias, como o de L' Invitation au Voyage, de Baudelaire. Mas vinte anos depois, quando ele morava na rua do Curvelo, num momento de muito desânimo, da mais aguda sensação de tudo o que não tinha feito em sua vida por motivo de doença (tinha tuberculose), saltou-lhe de súbito do subconsciente esse grito estapafúrdio: “Vou me embora pra Parságada”.

Sentiu na redondilha a primeira célula de um poema e tentou realizá-lo, mas fracassou. Naquele tempo já não forçava a mão. Abandonou a ideia. Alguns anos depois, em idênticas circunstâncias de desalento e tédio ocorreu-lhe o mesmo desabafo de evasão da 'vida besta'Desta vez o poema saiu sem esforço, como se já estivesse pronto dentro dele.

'Gosto desse poema porque vejo nele, em escorço, toda a minha vida, e também porque parece que nele soube transmitir a tantas outras pessoas a visão e promessa da minha adolescência – essa Parságada onde podemos viver pelo sonho o que a vida madrasta não nos quis dar. Não sou arquiteto, como meu pai desejava, não fiz nenhuma casa, mas reconstruí, e não como uma forma imperfeita neste mundo de aparências, uma cidade ilustre, que hoje não é mais a Parságada de Ciro, e sim a minha Parságada'.

       
      Vou-me embora pra Pasárgada


      Vou-me embora pra Pasárgada
       Lá sou amigo do rei
       Lá tenho a mulher que eu quero
       Na cama que escolherei
       Vou-me embora pra Pasárgada

       Vou-me embora pra Pasárgada
       Aqui eu não sou feliz
       Lá a existência é uma aventura
       De tal modo inconsequente
       Que Joana a Louca de Espanha
       Rainha e falsa demente
       Vem a ser contraparente
       Da nora que nunca tive

       E como farei ginástica
       Andarei de bicicleta
       Montarei em burro brabo
       Subirei no pau-de-sebo
       Tomarei banhos de mar!
       E quando estiver cansado
       Deito na beira do rio
       Mando chamar a mãe-d'água
       Pra me contar as histórias
       Que no tempo de eu menino
       Rosa vinha me contar
       Vou-me embora pra Pasárgada

       Em Pasárgada tem tudo
       É outra civilização
       Tem um processo seguro
       De impedir a concepção
       Tem telefone automático
       Tem alcaloide à vontade
       Tem prostitutas bonitas
       Para a gente namorar

       E quando eu estiver mais triste
       Mas triste de não ter jeito
       Quando de noite me der
       Vontade de me matar
       — Lá sou amigo do rei —
       Terei a mulher que eu quero
       Na cama que escolherei
       Vou-me embora pra Pasárgada.

       Uma Antologia Poética L&PM Pocket pág 89.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Mas que mundo tu vives, criatura?

Por Tais Luso

Esse chavão, que coloquei como título da crônica, além de cafona é irritante, pois mostra uma pretensão descabida, um ego insuportável, controlador e senhor de todas as ideias. Mama mia... Vejo isso em muitas cantos por aí. Embora eu não seja movida a ódio, isso me incomoda. É o caso de segurarmos nossos instintos mais primitivos – relembrando o delator do mensalão.

– Mas em que mundo tu vives, criatura?

É, odeio agressões. Essa atitude despirocada e megalomaníaca causa uma certa indigestão em qualquer um que tenha o sangue um pouco quente. É como chamar alguém de burro sem necessidade.

Após um ato desses, muitos não se entendem mais, vira papo de primatas. Acho ótimo quando duas pessoas conseguem se entender sem ofensas e num mesmo nível de educação. É impossível conversar com aloprados, até num papinho sobre a conhecida e falada política do Brasil em que o mundo inteiro está por dentro. Quando muita coisa já está transparente. Que não há mais mistério.

Quando damos nossa opinião não quer dizer que seja a única, ou a certa. É apenas uma opinião: a nossa. Um direito à liberdade. E quando ouvimos o tal chavão, olho no olho, e paramos pra pensar, a coisa muda de figura. Dá uma vontade imensa de destrambelhar. O que não vale a pena.

A obsessão de mandar contra tudo sem ponderar nada, colocando uma arrogância acadêmica numa conversinha de boteco, não cabe. O que era para ficar simples toma proporções enormes, tudo muito grandioso para uma conversa curta e despretensiosa.


Acaba enchendo o saco e estragando a festa.

Crônicas do cotidiano é escrito por Tais Luso, que reside em Porto Alegre e escreve uma vez na semana suas histórias e contos.  

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Crônicas do Cotidiano

Um alegre encontro 

* Tais Luso

Quem consegue ser feliz no lugar em que mora, ver beleza na simplicidade do cotidiano, já é meio caminho andado para achar, no final, que valeu a pena. Moro no meu bairro desde minha juventude. Ao caminhar entre as grandes árvores, prédios e casas antigas sinto-me feliz. Casei e fiz meu ninho por aqui. E aqui também morava meu marido.

Hoje, após o almoço, caminhando em direção ao Correio, Pedro e eu fomos interrompidos, bruscamente, por um homem que já avançava os 80 anos. Eta bichinho esperto e alegre! Chegou já cortando a nossa frente e, com sua voz forte, e olhando nos nossos olhos disse:

Oh! Que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!

Ficamos meio assustados, assim na rua... Isso foi inédito. Mas mal acabou e eu disse rapidinho, apontando para ele: Casimiro de Abreuuu!!! E nós três caímos num riso gostoso, assim, sem nos conhecermos, apenas enlaçados pelo poema que ele declamava, faceiro da vida. Nem considerei  se o homem estava meio fora da casinha...

Mas jamais diria pobre do velhinho... Digo que rico e alegre homem! Que encontro simpático. E continuou seu trajeto, enquanto nós dois atravessamos a rua, rindo. Amo esse bairro atípico, lindo e tradicional. Sempre encontro coisas do arco por aqui.

É aqui que entro e saio dos lugares e sou chamada pelo meu nome; é aqui que dizem leva... paga depois! É aqui que, mal saio do meu prédio, me perguntam sobre meu cachorro,  meus filhos, meu marido; é aqui que muitos se dizem saudosos de meus pais e lembram de meus avós.

Quero encontrar o declamador, novamente. Quero sentir alegria pelas ruas do bairro que é a extensão da minha casa.

Mas no próximo encontro direi para o nosso declamador que aqui é Parságada; é   aqui que somos felizes e amigos do rei...

Crônicas do cotidiano é escrito por Tais Luso, que reside em Porto Alegre e escreve uma vez na semana suas histórias e contos.  

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Crônicas do Cotidiano

Internautas Sofredores 

Imagem ilustrativa 
Por Taís Loso 

Estou conformada em fazer parte da geração dos Internautas sofredores. Ainda mais nós, os blogueiros, que usamos editor de texto  e que inúmeras vezes ficamos surpresos com coisas que  aparecem ou desaparecem - sem razão alguma. Mesmo assim  somos felizes diante desse rolo todo.

Há muitos anos os blogs eram diferentes, toda a montagem para introduzir ou modificar algo  era por meio de tags (códigos) – coisas muito trabalhosas, perdia-se tempo e íamos quase à loucura. Mas os provedores foram se modernizando, tornando as coisas mais fáceis. Tornei-me adepta dessa ferramenta oferecida por uma tecnologia moderna para escrever um pouco sobre nosso cotidiano, nossos costumes. Quando eu estiver numa 'outra' - não sei se boa ou não -, talvez fique rodopiando por aqui uma parte boa de mim.

É bom escrever, ter contato com as pessoas; faz bem pensar, e eu me divirto em algumas postagens, outras nem tanto, pois coloco também indignação e perplexidade – o que não serve bulhufas. Apenas para desabafar, pois moro num país em que o povo precisa matar um leão por dia para que tudo corra dentro do mais ou menosPor certo não gostaria de mudar de país, eu gostaria de ver meu país mudar – como disse o jornalista Políbio. E assim vou levando e cumprindo o que postei no meu perfil, ciente de que todos nós temos algo a dizer, uma vontade de largar o que está preso no peito. Então...

'Escrever é a maneira mais fácil de dizer as coisas sem ser interrompida.'

Pois ontem, tudo certinho comigo e meu pc quando de uma hora pra outra, meu editor de texto resolveu apagar o que eu escrevia, e o som foi para o espaço, justamente quando eu estava assistindo uns vídeos no Youtube dos jornalistas Políbio Braga e Olavo de Carvalho, sobre umas coisinhas do nosso país e da nossa gente...

Fui aos fóruns dos sites de ajuda, e um pelotão de Internautas desesperados e enlouquecidos pedindo ajuda. Centenas de Por favor, me ajudem!

Constatei a ansiedade dos colegas pedindo socorro, e também a solidariedade, uns dando dicas aos outros. Estamos bem informatizados, porém vivemos numa época de muito estresse gerado por todo esse maquinário que nos cerca. Tudo é máquina, tudo é virtual, que passou a ser o nosso real.

Mas consegui ajeitar, descobrir, mesmo levando uma tarde inteira. O mais difícil foi formar a rede dos computadores novamente, pois tudo tinha ido pro brejo. Mas foi na base da persistência que conseguimos, eu e Pedro (sozinhos) restabelecer a rede, encontrar o som e arrumar o editor de texto.
Mais uma lição que ficou: a 'Persistência'! Benza Deus!

Eu gosto da frase (apesar de batida)  “nunca desista dos seus sonhos”! 

Mas hoje eu diria: nunca desista de acertar seu computador: vá à luta, tente! Se não der, aí chame o "homi"...

Até a próxima.

sábado, 1 de agosto de 2015

Crônicas do Cotidiano

 O arroz - Doce precisa de solidão 

Por Tais Luso

Calma!! Sei que é difícil para entenderem o título da crônica, confesso que puxei por todos os meus neurônios para descobrir o sentido da coisa, logo eu que fui a vítima. Com 200 anos de casamento nas costas, não conheço totalmente as ideias filosóficas de meu marido.

Quase todos os dias almoçamos fora, nos restaurantes que oferecem dezenas de pratos diferentes, ao gosto do freguês. Mas nos reeducamos, escolhemos apenas 4 variedades para não fazermos um prato de cachorro louco. Combinamos os sabores entre si.

Porém, chegando na mesa das sobremesas, vários doces apetitosos mexeram com meus sentidos: adoro ambrosia, arroz-doce, creme de nozes, sorvete, mousse de maracujá e tantos outros. E tinha tudo isso. E resolvi me servir de arroz-doce com um pouquinho de creme de nozes por cima... Meu marido aproximou-se de mim e disse baixinho, mas com insistência, aquela coisa de marido sabichão:

– Não faça isso, o arroz-doce precisa de solidão!

Solidão? Sacudi meus neurônios e arrumei meus hormônios para ter a certeza de que estava apenas num restaurante, e não escutando Sócrates – com o seu célebre 'só sei que nada sei'; ou Aristóteles tentando me dizer que 'a verdade estava à minha volta'.

Difícil de entender a solidão do meu arroz-doce! Olhei pro meu marido, numa linguagem meio tosca, própria daqueles que têm fome e disse-lhe:

– Me deixa comer, caramba!!!

E levei meu doce junto ao peito, cuidado, idolatrado, como se fosse uma criança cuidando de seu brinquedo. Maravilha, arroz-doce com molho de nozes!
Depois que comi, virei para ele e cobrei uma explicação: o que você quis dizer com arroz e solidão? Nunca senti solidão...

– Não é você, é o doce! Arroz-doce não pede acompanhamento a não ser canela em pó, você descaracterizou o doce, entendeu?

– Ah, sim, entendi a solidão… Mas você não pensou na solidão do molho de nozes? Eu lhe dei vida juntando-o ao arroz…Até  acho que foi um encontro feliz!

Logicamente saímos rindo, nenhum de nós baixou suas armas, e tudo por causa de um doce! Enxerguei meus doces com outro olhar: dois companheiros que se completaram...

Enquanto isso, meu marido lambuzava-se com o mesmo arroz-doce, servido apenas com canela e numa filosófica e amarga solidão!
Vá entender...

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Olhar Poema

Chapeuzinho Amarelo

Por Francisco Buarque de Hollanda
(Chico Buarque)

Era a Chapeuzinho Amarelo
Amarelada de medo
Tinha medo de tudo, aquela Chapeuzinho.


Já não ria

Em festa, não aparecia
Não subia escada, nem descia
Não estava resfriada, mas tossia
Ouvia conto de fada, e estremecia
Não brincava mais de nada, nem de amarelinha


Tinha medo de trovão

Minhoca, pra ela, era cobra
E nunca apanhava sol, porque tinha medo da sombra


Não ia pra fora pra não se sujar

Não tomava sopa pra não ensopar
Não tomava banho pra não descolar
Não falava nada pra não engasgar
Não ficava em pé com medo de cair
Então vivia parada, deitada, mas sem dormir, com medo de pesadelo
Era a Chapeuzinho Amarelo…


E de todos os medos que tinha

O medo mais que medonho era o medo do tal do LOBO.
Um LOBO que nunca se via,
que morava lá pra longe,
do outro lado da montanha,
num buraco da Alemanha,
cheio de teia de aranha,
numa terra tão estranha,
que vai ver que o tal do LOBO
nem existia.


Mesmo assim a Chapeuzinho

tinha cada vez mais medo do medo do medo
do medo de um dia encontrar um LOBO
Um LOBO que não existia.


E Chapeuzinho amarelo,

de tanto pensar no LOBO,
de tanto sonhar com o LOBO,
de tanto esperar o LOBO,
um dia topou com ele
que era assim:
carão de LOBO,
olhão de LOBO,
jeitão de LOBO,
e principalmente um bocão
tão grande que era capaz de comer duas avós,
um caçador, rei, princesa, sete panelas de arroz…
e um chapéu de sobremesa.


Mas o engraçado é que,

assim que encontrou o LOBO,
a Chapeuzinho Amarelo
foi perdendo aquele medo:
o medo do medo do medo do medo que tinha do LOBO.
Foi ficando só com um pouco de medo daquele lobo.
Depois acabou o medo e ela ficou só com o lobo.


O lobo ficou chateado de ver aquela menina

olhando pra cara dele,
só que sem o medo dele.
Ficou mesmo envergonhado, triste, murcho e branco-azedo,
porque um lobo, tirado o medo, é um arremedo de lobo.
É feito um lobo sem pelo.
Um lobo pelado.


O lobo ficou chateado.

Ele gritou: sou um LOBO!
Mas a Chapeuzinho, nada.
E ele gritou: EU SOU UM LOBO!!!
E a Chapeuzinho deu risada.
E ele berrou: EU SOU UM LOBO!!!!!!!!!!


Chapeuzinho, já meio enjoada,

com vontade de brincar de outra coisa.
Ele então gritou bem forte aquele seu nome de LOBO
umas vinte e cinco vezes,
que era pro medo ir voltando e a menininha saber
com quem não estava falando:


LO BO LO BO LO BO LO BO LO BO LO BO LO BO LO BO LO BO LO BO LO



Aí, Chapeuzinho encheu e disse:
“Pára assim! Agora! Já! Do jeito que você tá!”
E o lobo parado assim, do jeito que o lobo estava, já não era mais um LO-BO.
Era um BO-LO.
Um bolo de lobo fofo, tremendo que nem pudim, com medo de Chapeuzim.
Com medo de ser comido, com vela e tudo, inteirim.


Chapeuzinho não comeu aquele bolo de lobo,

porque sempre preferiu de chocolate.
Aliás, ela agora come de tudo, menos sola de sapato.
Não tem mais medo de chuva, nem foge de carrapato.
Cai, levanta, se machuca, vai à praia, entra no mato,
Trepa em árvore, rouba fruta, depois joga amarelinha,
com o primo da vizinha, com a filha do jornaleiro,
com a sobrinha da madrinha
e o neto do sapateiro.


Mesmo quando está sozinha, inventa uma brincadeira.

E transforma em companheiro cada medo que ela tinha:


O raio virou orrái;

barata é tabará;
a bruxa virou xabru;
e o diabo é bodiá.
FIM


( Ah, outros companheiros da Chapeuzinho Amarelo:

o Gãodra, a Jacoru,
o Barãotu, o Pão Bichôpa…
e todos os trosmons).


segunda-feira, 29 de junho de 2015

Crônicas do Cotidiano

O Fim da Fotografia ?

-  por Tais Luso

Meus álbuns poderão fazer parte de museus. Hoje é um cerimonial folhar um álbum, ver fotos da juventude, formaturas, casamentos da família, festas... Mas a luta é inglória, o pessoal só quer saber de fotos no Smartfone, Tablets e aparentados. E dos últimos acontecimentos em Selfie. Nunca vi tanto autorretrato. Tantas caras e bocas. 

Minha geração (longe de ser do período paleolítico) ainda teve o privilégio de tirarfotografia. De manusear uma máquina profissional. De tentar fazer Arte fotográfica.
Ao ler uma entrevista na revista ISTOÉ, com o genial mineiro Sebastião Salgado, me bateu a nostalgia de um adeus. Cedo ou tarde teremos a despedida, segundo ele. A 'fotografia' está no seu final. Ele fala em fotografia profissional que passa por uma técnica própria, por processo especial da impressão, edição, um manuseio especial em laboratório. E uma técnica aprimorada. Tive o prazer de entrar num estúdio de revelação e ver o processo, a elaboração de uma fotografia.

Em seu último trabalho, o fotógrafo coloca o planeta à nossa disposição; os lugares mais fascinantes da Terra, difícil de chegar, difícil de fotografar, emocionante de ver. Oito anos de trabalho intenso para compor a obra Genesis.

'Descobri que 46% do planeta ainda está como no dia da gênese' - relatou Salgado.

Interagiu ao longo de 40 anos com culturas fantásticas, registrando pessoas, fauna, flora e contribuindo para preservação do planeta. Pelo menos tentando. Seu próximo trabalho será sobre as tribos indígenas brasileiras – grupos antigos, remotos e intocados pela civilização - ainda. Pelo menos 100 grupos nunca foram contactados. Deverá ser um trabalho minucioso e fantástico.

Mas, pra não dizer que só falei de flores e não coloquei uma pimentinha no texto, pergunto se algo bem contemporâneo não ficará registrado nos anais da história da fotografia dita imagem: falo do horroroso, deselegante e cafona pau de selfie. É uma invenção sui generis. Até em casamento já foi usado, e pelo padre! Não há dúvida que ficou exótico.

Porém está com seu uso proibido nos vários parques temáticos dos Estados Unidos, de Paris e Hong Kong, o que alegam representar um perigo para a segurança de seus visitantes e empregados. Essa medida se estende, também,  a vários  museus. (ZH-27/6/2015).

Não faz muito que li um artigo escrito por um especialista em ciência de computação, que deu para perceber a despreocupação das pessoas a respeito do seu resguardo (ZH 14/6/2015). Não há dúvidas que elas não se dão conta do grande risco que correm com a exposição de tantas fotos nas redes. Pela facilidade, o ato se torna inconsequente. Mas como já virou uma paranoia, ninguém pesa as consequências. Mas pode virar um incômodo tamanho família. A vaidade humana não tem limites, está por demais escrachada.
Já existem, nos Estados Unidos, estudos com jovens que já se encontram doentes e insatisfeitos porque a tal selfie não lhes agrada nunca! E tais fotinhos precisam ser aprovadas nas redes sociais. Este é um dilema que virou obsessão por uma grande parte de pessoas. Enfim, os tempos são outros... Mas a arte, a criação e a emoção são coisas diferentes. Ficarão para sempre como relato da história da humanidade.


Protesto na Praça da Paz Celestial
Um jovem durante o protesto na Praça da Paz Celestial, na China, que fez parar uma fileira de tanques de guerra. A identidade do jovem é desconhecida até hoje. Em 2000, o mesmo jovem  foi eleito pela revista Time uma das pessoas mais influentes do século XX.



Solidariedade
A foto revela um gesto de solidariedade de um missionário em Uganda - 1980. 
A foto ficou registrada como a melhor foto daquele ano, sem que o fotógrafo soubesse...


A menina e o abutre
Essa foto emocionou o mundo, pois retrata a calamidade da fome na África, causada pela guerra civil. A tomada da foto foi feita em uma aldeia no Sudão (1993) e mostra um abutre observando uma criança desnutrida que aparentava esperar a morte e viraria alimento da ave. A foto rendeu ao fotógrafo o Prêmio Pulitzer. Contudo foi muito criticado por não ter ajudado a criança. Pressionado pelo sentimento de culpa, Carter  suicidou-se em 1994, aos 33 anos. 

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Crônicas do Cotidiano

Os Homens já podem chorar 



- Tais Luso de Carvalho

Nas minhas improdutivas noites de insônia, liguei o rádio e escutei um programa sobre as mulheres, os homens e o trabalho doméstico. Naturalmente os homens entraram na pauta,  lembrei de algumas peculiaridades deles e outras nossas.

Sabe-se que mulher tem uma visão periférica mais ampla, vê tudo ao redor, e isso ajuda muito. E, quando possui uma enorme determinação, torna-se vítima dela mesma:

- Eu posso, eu consigo, eu me estrebucho, mas eu faço!

E abraça a causa do tamanho que for. No começo, cheia de amor. Depois vai na raça.

Será que os homens conseguiriam cuidar ao mesmo tempo dos filhos, da comida, atender o telefone, campainha, gás,  cachorro e ainda investigar o porquê da enorme zorra do papagaio? E qual o motivo da casa virar uma central de patetas quando nós, mulheres, adoecemos por alguns dias?

Sabemos que trabalho de casa é exaustivo e que só aparece quando 'não’ é feito. Quando a casa fica anarquizada aparecem umas visitinhas com a língua solta e os olhos num silencioso diagnóstico… Pô, que bagunça!! Que mulher porca.
Pronto, tá feito o embrulho, não há mulher que não decifre certos olhares.

Mas as coisas já melhoraram, e muito. Não há mais preconceito quanto ao homem ajudar nas tarefas da casa. Uma boa parte das mães cessaram com aquela coisa medieval de que homem não pode, homem não chora, homem é homem! Hoje, ao contrário, todas adoram um homem na cozinha. Homem que era homem tinha de engolir sentimentos na dureza. Nada de mariquice – coisa de mãe não evoluída. Mas essa evolução não é vista em todos os lugares. Em muitos, o tempo parou. Feliz da mulher que tem ao seu lado um companheiro e não um escudeiro.

Homem era força, era determinação e bom de briga. Não havia campo para levezas, sutilezas e sentimentalismos. Mas hoje, tem muito pai se virando bonito, trocando fraldas etc. É sensacional quando o homem adquiri uma consciência de cuidar e dividir algumas tarefas de casa. Ser mais parceiro, mais sensível. É bom ver o homem inventar comida, participar da cozinha, ser solidário, escolher coisas para decoração. Mulher gosta dessa cumplicidade. Tudo isso aproxima e dá ao homem uma dimensão mais familiar, mais humana à sua vida.

Ótimo que muitas mães  estão educando os filhos com a razão e com o coração, deixando vir à tona belos sentimentos, principalmente o de permitirem que seus filhos chorem – o que comove  qualquer mulher. Homem quando chora é porque a coisa está doendo mesmo, seja no corpo ou na alma. E para mim, não há extravasão que comova mais. Não há lágrimas de homem que não balance o coração de uma mulher e a faça chorar junto. Se queremos homens sensíveis é necessário deixar que seus sentimentos aflorem. E que possam manifestá-los.
Que bom que os homens já podem chorar.