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quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

O ‘Hoje na História’ exibira Clarice Lispector e seus contos

Foto: divulgação.

No dia 9 de dezembro de 1977, o Brasil perdia uma das suas maiores escritoras: Clarice Lispector. Aos 52 anos, ela foi vítima de um câncer após mais de um mês hospitalizada, no Rio de Janeiro. Nascida na Ucrânia, ela veio ao Brasil ainda bebê. Seu último livro, “A Hora da Estrela, foi publicado em outubro, quando já estava doente. Outros de seus livros conhecidos são A Maçã no Escuro e Laços de Família. Formada em Direito, nunca seguiu a profissão. Preferiu trabalhar como jornalista no Jornal do Brasil, na década de 1970. Depois, também escreveu no Correio da Manhã e Diário da Noite. Clarice começou a escrever cedo. Aos 19 anos publicou o seu primeiro livro Perto do Coração Selvagem, em 1944. Dois anos depois lançou O Lustre. Em 1964, publicou A Legião Estrangeira, uma coletânea de contos, e o romance A Paixão segundo G.H. Em 1973, mais um livro “Água Viva, que foi um sucesso de público. Com estilo único, suas histórias eram dramáticas, por vezes, trágicas. Clarisse influenciou praticamente todas as escritoras que a sucederam.

domingo, 13 de setembro de 2015

Olha poemas

       Primavera 
 Por Pedro Luso.
     De onde vem esse vento,
          que a tudo espanta
          e que leva dos varais
          encardidas consciências – 
          roupas surradas 
          feito esperança perdida?

          Para que serve esse vento
          assim, feito remorso
          e pecado?
          Para que serve esse vento
          com ruído de agouro
          e de morte?

          Esse vento veio roubar
          do tempo, o inverno 
          frio, feito maldade,
          e levar a tristeza, gelo d’alma,
          para  setembro florir
          na  Primavera.

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Olhar poemas

 Inconstância dos bens do mundo

Nasce o Sol, e não dura mais que um dia, 
Depois da Luz se segue a noite escura, 
Em tristes sombras morre a formosura, 
Em contínuas tristezas a alegria.

Porém se acaba o Sol, por que nascia?
 Se formosa a Luz é, por que não dura? 
Como a beleza assim se transfigura?
 Como o gosto da pena assim se fia? 

Mas no Sol, e na Luz, falte a firmeza,
 Na formosura não se dê constância, 
E na alegria sinta-se tristeza.

Começa o mundo enfim pela ignorância, 
E tem qualquer dos bens por natureza 
A firmeza somente na inconstância. 

Gregório de Matosséculo XIX, F. Briguiet.

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Olhar Poema

Chapeuzinho Amarelo

Por Francisco Buarque de Hollanda
(Chico Buarque)

Era a Chapeuzinho Amarelo
Amarelada de medo
Tinha medo de tudo, aquela Chapeuzinho.


Já não ria

Em festa, não aparecia
Não subia escada, nem descia
Não estava resfriada, mas tossia
Ouvia conto de fada, e estremecia
Não brincava mais de nada, nem de amarelinha


Tinha medo de trovão

Minhoca, pra ela, era cobra
E nunca apanhava sol, porque tinha medo da sombra


Não ia pra fora pra não se sujar

Não tomava sopa pra não ensopar
Não tomava banho pra não descolar
Não falava nada pra não engasgar
Não ficava em pé com medo de cair
Então vivia parada, deitada, mas sem dormir, com medo de pesadelo
Era a Chapeuzinho Amarelo…


E de todos os medos que tinha

O medo mais que medonho era o medo do tal do LOBO.
Um LOBO que nunca se via,
que morava lá pra longe,
do outro lado da montanha,
num buraco da Alemanha,
cheio de teia de aranha,
numa terra tão estranha,
que vai ver que o tal do LOBO
nem existia.


Mesmo assim a Chapeuzinho

tinha cada vez mais medo do medo do medo
do medo de um dia encontrar um LOBO
Um LOBO que não existia.


E Chapeuzinho amarelo,

de tanto pensar no LOBO,
de tanto sonhar com o LOBO,
de tanto esperar o LOBO,
um dia topou com ele
que era assim:
carão de LOBO,
olhão de LOBO,
jeitão de LOBO,
e principalmente um bocão
tão grande que era capaz de comer duas avós,
um caçador, rei, princesa, sete panelas de arroz…
e um chapéu de sobremesa.


Mas o engraçado é que,

assim que encontrou o LOBO,
a Chapeuzinho Amarelo
foi perdendo aquele medo:
o medo do medo do medo do medo que tinha do LOBO.
Foi ficando só com um pouco de medo daquele lobo.
Depois acabou o medo e ela ficou só com o lobo.


O lobo ficou chateado de ver aquela menina

olhando pra cara dele,
só que sem o medo dele.
Ficou mesmo envergonhado, triste, murcho e branco-azedo,
porque um lobo, tirado o medo, é um arremedo de lobo.
É feito um lobo sem pelo.
Um lobo pelado.


O lobo ficou chateado.

Ele gritou: sou um LOBO!
Mas a Chapeuzinho, nada.
E ele gritou: EU SOU UM LOBO!!!
E a Chapeuzinho deu risada.
E ele berrou: EU SOU UM LOBO!!!!!!!!!!


Chapeuzinho, já meio enjoada,

com vontade de brincar de outra coisa.
Ele então gritou bem forte aquele seu nome de LOBO
umas vinte e cinco vezes,
que era pro medo ir voltando e a menininha saber
com quem não estava falando:


LO BO LO BO LO BO LO BO LO BO LO BO LO BO LO BO LO BO LO BO LO



Aí, Chapeuzinho encheu e disse:
“Pára assim! Agora! Já! Do jeito que você tá!”
E o lobo parado assim, do jeito que o lobo estava, já não era mais um LO-BO.
Era um BO-LO.
Um bolo de lobo fofo, tremendo que nem pudim, com medo de Chapeuzim.
Com medo de ser comido, com vela e tudo, inteirim.


Chapeuzinho não comeu aquele bolo de lobo,

porque sempre preferiu de chocolate.
Aliás, ela agora come de tudo, menos sola de sapato.
Não tem mais medo de chuva, nem foge de carrapato.
Cai, levanta, se machuca, vai à praia, entra no mato,
Trepa em árvore, rouba fruta, depois joga amarelinha,
com o primo da vizinha, com a filha do jornaleiro,
com a sobrinha da madrinha
e o neto do sapateiro.


Mesmo quando está sozinha, inventa uma brincadeira.

E transforma em companheiro cada medo que ela tinha:


O raio virou orrái;

barata é tabará;
a bruxa virou xabru;
e o diabo é bodiá.
FIM


( Ah, outros companheiros da Chapeuzinho Amarelo:

o Gãodra, a Jacoru,
o Barãotu, o Pão Bichôpa…
e todos os trosmons).