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terça-feira, 5 de maio de 2015

#Olhar conectado

Pesquisa indica que uso excessivo de celular deixa o cérebro preguiçoso


Por Vilhena Soares Correio Braziliense

Estudo canadense aponta correlação entre o uso de pesquisas via smartphones e a menor capacidade de resolver problemas de forma analíticaA praticidade de descobrir rapidamente uma informação que não vem fácil à memória é uma das grandes vantagens do uso de smartphones. Apesar de parecer a melhor coisa do mundo quando permitem uma busca na internet para descobrir como é mesmo o nome daquela atriz ou o endereço daquele restaurante que um amigo indicou, os celulares inteligentes podem “acomodar” o cérebro. Estudo canadense feito com usuários de telefones com acesso à internet mostrou que, quanto mais as pessoas recorrem a esses aparelhos, mais elas podem ser prejudicadas nas tomadas de decisões. Os autores do trabalho, publicado no jornal Computers in Human Behavior, acreditam que o uso excessivo dos dispositivos deixa o cérebro preguiçoso.

O estudo realizado por uma equipe da Universidade de Waterlloo sugere que a comodidade de ter várias ferramentas que auxiliam em tarefas do cotidiano pode ser um problema para a saúde das pessoas à medida que elas deixam de buscar na própria memória as informações de que precisam. “Nós pedimos às pessoas para indicar quanto tempo elas gastam usando o smartphone para procurar informações. Também perguntamos sobre quanto tempo é gasto usando os telefones para fins de entretenimento e mídia social”, conta Gordon Pennycook, um dos autores da pesquisa.

Pennycook diz que, depois dessa etapa, também foram examinadas diferentes habilidades cognitivas dos participantes, como a capacidade intuitiva e analítica e as habilidades verbais e matemáticas. Para isso, os 660 voluntários realizaram uma série de exercícios lúdicos, como resolução de problemas lógicos, por exemplo. Após os testes, os pesquisadores notaram que os participantes que tinham habilidades cognitivas mais “afiadas” e uma maior disponibilidade para pensar de forma analítica gastavam menos tempo usando a função de busca dos smartphones. 

“As pessoas que confiam em seus ‘instintos’ ou na intuição para resolver problemas, em vez de usar o raciocínio lógico ou analítico, uma atividade que exige mais esforço, podem ser consideradas cognitivamente preguiçosas. Descobrimos que os indivíduos que mais dependem de seus smartphones como uma fonte de informação são pensadores ‘mais preguiçosos’, isto é, eles tendem a confiar em seus instintos na resolução de problemas e estão menos dispostos a pensar logicamente para chegar a uma solução”, explica Pennycook.


Sem precipitação 

Os responsáveis pela pesquisa, no entanto, ressaltam que não se deve condenar os celulares apenas com base nesses resultados. Isso seria precipitado. O estudo fornece boas pistas, mas os dados ainda não são suficientes para comprovar déficits cognitivos ligados ao uso dos smartphones. O ideal é que mais pesquisas sejam feitas, o que é importante, dado o grande uso desses aparelhos atualmente. “Nós, infelizmente, não sabemos se há um custo negativo de usar smartphones. Encontramos uma associação entre a utilização exagerada do smartphone e a inteligência, mas isso não significa que os celulares causem danos ao cérebro. O que isso mostra é que precisamos de muito mais pesquisas nessa área, que ainda é pouco estudada”, destaca o cientista.


O estudo fornece boas pistas, mas os dados ainda não são suficientes para comprovar déficits cognitivos ligados ao uso dos smartphones. Foto: Reprodução/EM.


Sonia Brucki, membro da Associação Brasileira de Neurologia (ABN), também acredita que são necessárias mais investigações para relacionar problemas cerebrais ao uso exagerado de smartphones. “Acho que não sabemos o suficiente para responder a essa pergunta. As pessoas podem utilizar seus aparatos eletrônicos de forma diferente, dependendo da fase da vida e da demanda profissional ou de estudos. Portanto, não dá para generalizar. Alguém pode ficar a maior parte do tempo jogando ou vendo mídias sociais, enquanto outros podem ficar navegando por sites de história antiga. Os efeitos sobre seus processos cognitivos serão provavelmente diferentes”, destaca a médica.

Uso moderado 

Apesar da necessidade de mais trabalhos, Brucki destaca a importância do trabalho. “Precisamos ter pesquisas que avaliem os processos cognitivos em pessoas que utilizem essas tecnologias, pois cada vez mais estaremos avaliando pessoas que cresceram e crescerão com uma nova forma de pensar, de pesquisar e de aprender”, complementa a neurologista. 

Para Anna Lucia Spear King, psicóloga clínica e pesquisadora do Grupo Delete – Detox Digital e Uso Consciente de Tecnologias, do Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a pesquisa dos cientistas canadenses, apesar de não garantir que danos podem ser causados ao cérebro, ressalta que o uso moderado do celular é recomendado para evitar problemas de saúde que podem ser desencadeados pelo exagero. “Para afirmar que traz malefícios ao cérebro, precisamos de exames mais concisos, mas já conseguimos observar que, se uma pessoa tem uma característica de comportamento como a ansiedade e a hiperatividade, isso pode ser acentuado com o uso excessivo do celular. Pode acarretar problemas graves de saúde. Devido a esse risco, o uso moderado é essencial”, avalia. 

A especialista ressalta que a tomada de decisões é um dos pontos que podem ser prejudicados pelo uso excessivo do celular. “A decisão necessária no dia a dia, diante de situações importantes, pode ser interferida pelo uso dessas tecnologias em excesso. Assim, o profissional precisa ter bom senso para que isso não atrapalhe seu desempenho. Até por isso, falamos muito da necessidade da etiqueta digital, que trata de como e quando usar a tecnologia no cotidiano”, lembra. 

A pesquisa do grupo canadense terá continuidade, buscando explorar outros reflexos da tecnologia no desenvolvimento cognitivo. “Nosso plano é explorar a forma como a dependência de smartphones interfere na criatividade, bem como no tempo que as pessoas perseveram ao tentar resolver problemas difíceis”, adianta Pennycook.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Redes nada sociáveis

As mídias sociais da internet ainda vivem sob o clima de guerra que se instalou com as eleições e provocou inimizades entre os usuários

Por Cesar Soto

Danusa Maroto, uma analista de planejamento de 29 anos moradora de Santo André, a cidade que representa o A do ABC Paulista, por pouco não encerra uma amizade familiar por conta das eleições deste ano. Filha de nordestinos, Danusa ficou revoltada quando viu a namorada de seu irmão, a atriz Caroline Santos, 20 anos, postar comentários ofensivos no Facebook atribuindo a reeleição da presidenta Dilma Rousseff aos brasileiros da região Nordeste. “Eu lembrei que a sogra dela era uma nordestina, mas ela estava tão inflamada pelo resultado que piorou o discurso. Não tive dúvida, fiz o bloqueio na hora, para não agravar as coisas”, diz, que viu o irmão ter de entrar no meio da discussão para não deixar que a briga escalasse para níveis irreparáveis entre as cunhadas.



Danusa e Aline, felizmente, acertaram os ponteiros depois de trocas de mensagens pelo celular, em que a futura cunhada pedia desculpas pelos comentários desmedidos na rede. Casos de rupturas temporárias em amizades próximas e antigas como a das duas foram rotina nestas eleições, em especial na polarização que tomou conta do País no segundo turno. De uma hora para outra o Brasil foi dividido em “coxinhas” e “petralhas”, que passaram a guerrear nas redes sociais como se inimigos étnicos milenares fossem.
Os embates, algumas vezes repletos de golpes baixos, foram reflexo – e também razão – da maneira como os principais candidatos à Presidência da República utilizaram o Facebook, o Twitter, o WhatsApp e o Instragram ao longo da corrida pelo Planalto. Nunca na história das eleições brasileiras a disputa por votos foi tão intensa e tão importante na internet como em 2014. Prova disso são os números divulgados pelo Facebook logo após o fim do segundo turno. De acordo com a maior rede social do planeta, o tema eleições foi mencionado 647 milhões de vezes durante a campanha no País. “Foi o maior acontecimento já mensurado pelo Facebook no mundo”, afirma Bruno Magrani, diretor de relações institucionais da companhia americana no Brasil. Nem mesmo as eleições na Índia, país com mais de 1 bilhão de habitantes, ou a reeleição de Barack Obama, em 2012, movimentaram o Facebook com tamanha intensidade.
Por pouco Aline (esq.) e Danusa não rompem uma amizade de mais
de dois anos por conta de comentários postados no Facebook
sobre a campanha presidencial

Não à toa. Jamil Marques, professor da Universidade Federal do Ceará e um dos organizadores do livro “Do Clique à Urna: Internet, Redes Sociais e Eleições no Brasil” (Edufba, 2013), acredita que as redes sociais tiveram um peso importante na definição dos vencedores no pleito de 2014. “Os partidos querem que o eleitor se engaje na militância, influenciando de forma indireta os indecisos”, diz ele. Hoje só o Facebook tem quase 90 milhões de usuários no Brasil, sendo 68 milhões com acesso via telefones celulares. “Quanto mais acirrada a disputa, maior será o uso de táticas negativas para desconstruir o adversário”, avalia.
Tanto o comitê do PSDB quanto o do PT informam, apenas por nota, que estimulam as pessoas a seguir os princípios da campanha limpa. Mas a internet é livre, defendem-se os comitês, alegando não ter controle sobre o que os correligionários postam. Não é, no entanto, o que mostra uma pesquisa feita pela consultoria Conversion. As publicações de propostas foram minorias nas páginas oficiais dos candidatos no Facebook, segundo a consultoria. No conteúdo publicado pelo tucano Aécio Neves, 72% eram constituídos de autopromoção, 10% de ataques à adversária e 18% de propostas. Dilma, que publicou o dobro de vezes que Aécio, tem número ainda menor: apenas 12% de propostas, com 26% de ataques e 62% de autopromoção. De acordo com o estudo, publicações propositivas têm 40% menos engajamento do público que as demais.

Dados numéricos

O comportamento dos candidatos, é claro, encontra eco entre os eleitores. “Nas redes, acontece uma bola de neve. A quantidade elevada de discussões eleitorais cria uma mentalidade politizada, que, por sua vez, acaba criando novos debates, fomentando o clima acirrado”, afirma o sociólogo João Barreto, da Universidade Federal da Bahia. Danusa e Aline que o digam. 

Por Cesar Soto da revista Isto é.
FOTO: JOÃO CASTELLANO/AG. ISTOÉ